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Serviços públicos entram na era digital enquanto exclusão ainda preocupa

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Transformação digital costuma ser anunciada como solução imediata para velhos problemas da administração pública. Na prática, porém, modernizar serviços exige mais do que plataformas eletrônicas, aplicativos e sistemas integrados. Exige coordenação entre governos, capacidade técnica dos municípios e acesso real da população às ferramentas criadas. Rondônia aparece agora em posição de destaque na adesão à Rede GOV.BR, iniciativa nacional voltada à digitalização de serviços públicos. O avanço merece atenção, mas também pede análise menos apressada.

Dos 52 municípios rondonienses, 30 já aderiram formalmente ao programa federal de governo digital. Isso significa alcance potencial de cerca de 85% da população estadual. Em um estado marcado por longas distâncias, dificuldades logísticas e concentração de serviços públicos em poucos centros urbanos, a digitalização pode representar mudança concreta na rotina da população. Resolver demandas sem deslocamentos extensos deixa de ser apenas comodidade. Passa a ser necessidade administrativa e social.

O avanço também possui impacto financeiro relevante. Ao utilizar plataformas já desenvolvidas pelo Governo Federal, os municípios evitam custos elevados com criação de sistemas próprios. Em tempos de orçamento apertado, a adesão à infraestrutura federal surge como alternativa racional para modernizar serviços sem ampliar despesas em tecnologia. Prefeituras menores, muitas vezes sem equipes técnicas robustas, encontram nesse modelo uma possibilidade de atualização mais rápida.

Ao mesmo tempo, seria precipitado tratar a digitalização como solução definitiva para a baixa eficiência pública. Experiências recentes mostram que transferir procedimentos do papel para a tela do computador não elimina automaticamente problemas estruturais da burocracia brasileira. Em alguns casos, processos continuam lentos, complexos e fragmentados, apenas com nova aparência tecnológica. Quando isso acontece, o cidadão troca a fila física pela dificuldade virtual.

Existe ainda um ponto frequentemente ignorado nos anúncios oficiais: exclusão digital. Embora o acesso à internet tenha crescido, milhares de pessoas ainda enfrentam limitações de conectividade, falta de equipamentos adequados ou dificuldade de utilização das ferramentas digitais. Em regiões afastadas, onde o sinal é instável e a cobertura limitada, depender exclusivamente de serviços eletrônicos pode ampliar barreiras em vez de reduzi-las.

Outro aspecto envolve a preparação das próprias administrações municipais. Implantar plataformas digitais exige treinamento contínuo, reorganização interna e servidores capacitados para operar sistemas integrados. Sem investimento permanente em qualificação, há risco de subutilização das ferramentas disponíveis. Tecnologia pública não funciona apenas pela existência do sistema. Funciona pela capacidade de gestão.

Diário da Amazônia

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