O dólar registrou queda expressiva de 0,87% sobre o real, cotado a R$ 5,17, nesta quarta-feira (19/8). Na véspera, a moeda americana avançou 0,40%, a R$ 5,22.
Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), disparou. Ele fechou em alta de 0,90%, aos 167,8 mil pontos, depois de ter atingido 170,3 mil pontos pouco antes das 11 horas. Com o resultado, o indicador interrompeu uma série de 11 quedas seguidas.
O bom humor voltou aos mercados de câmbio e ações depois que o Tesouro dos Estados Unidos anunciou um aumento do volume de recompras de títulos públicos de longo prazo. Inesperada, a medida aliviou os juros desses papéis, considerados os mais seguros do mercado mundial, e enfraqueceu o dólar globalmente. Isso favoreceu moedas de países emergentes.
O movimento do Tesouro americano ocorreu em meio à alta dos rendimentos desses papéis para os níveis mais elevados em anos. Nesta semana, por exemplo, a taxa do T-bond de 30 anos ultrapassou 5,30%, o maior patamar registrado desde 2007.
"O anúncio fez com que as taxas dos títulos do Tesouro americano de 10 e 30 anos desabassem", diz Emerson Junior, responsável pela mesa de câmbio da Convexa. "E tal movimento contagiou o mundo."
Busca por emergentes
Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, observa que grande parte do capital mundial estava estacionada nos Estados Unidos, "aproveitando as taxas altíssimas e extremamente seguras dos títulos". "Quando o Tesouro atua para derrubar esses juros longos, o dólar perde parte do seu apelo", diz. "Isso faz com que os investidores busquem rendimentos em mercados emergentes, como o Brasil."
Nesse cenário, o índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes (como o euro, o iene e a libra esterlina), registrava, às 16h40, baixa de 0,84%, aos 98,82 pontos. "A moeda americana perdeu força na comparação com países emergentes, mas o real registrou uma valorização acima da média", afirma Junior, da Convexa.
Ata do Fed
Além dos juros dos títulos da dívida dos Estados Unidos, os Treasuries, outro fato importante na agenda desta quarta-feira foi a divulgação da ata do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês). O documento trouxe mais informações sobre os motivos que levaram o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) a manter inalterada a taxa de juros americana (atualmente, no intervalo entre 3,50% e 3,75%), na última reunião do Fomc, em julho.
Na ocasião, a votação dos integrantes do Fed ficou dividida, com nove pela manutenção e três a favor de um aumento da taxa. Os dissidentes Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual.
Apoio à alta
"A novidade da ata foi o tamanho do apoio à posição de alta dentro do comitê", diz Vitor Kayo, economista sênior da Nomad. "O texto mostra que vários participantes da reunião defenderam abertamente subir os juros já naquele encontro, número maior do que os três votos dissidentes sugerem. Isso aconteceu porque nem todos os presentes votaram na reunião, já que o Fed alterna o direito de voto entre os presidentes dos bancos regionais a cada ano."
Para Kayo, com um núcleo de dirigentes já favorável a uma alta e outros dispostos a considerar essa opção caso a inflação não colabore, o Fed segue dividido entre manter os juros parados ou retomar o aperto. "Os próximos sinais devem vir na próxima reunião de política monetária, marcada para 15 e 16 de setembro", afirma.
Rafael Dadoorian, especialista em renda fixa da Convexa, destaca que os juros futuros fecharam em queda nesta quarta-feira, principalmente nos vencimentos intermediários, acompanhando o recuo dos rendimentos dos títulos americanos e a valorização do real.
"O movimento ganhou força após o Tesouro dos Estados Unidos anunciar o aumento das recompras de títulos de longo prazo, reduzindo os rendimentos dos Treasuries", afirma. "No fim do dia, a ata do Federal Reserve trouxe um contraponto ao mostrar maior preocupação com a inflação e manter aberta a possibilidade de novas altas de juros caso o processo de desinflação perca força."
Metrópoles