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SGC TV: Porto Velho foi construída onde não deveria e alagamentos são a prova

Urbanista aponta erro do Plano Diretor de 1988 como origem do problema e alerta para necessidade de desapropriações


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Foto: Reprodução

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Todo ano, no período chuvoso, a cena se repete em Porto Velho. Ruas viram rios. Bairros como Lagoa, Lagoinha e a Zona Sul ficam debaixo d'água. Motoristas procuram rotas alternativas. Moradores tiram água de dentro de casa. Comércio e serviços param.

A reportagem conversou com o urbanista Antonio Balau para entender as causas estruturais dos alagamentos. Ele é categórico: o problema começa com decisões tomadas há quase 40 anos.

O erro do Plano Diretor de 1988

O Plano Diretor de 1988 já previa a não urbanização de determinadas áreas da cidade. Entre elas, os bairros Lagoa e Lagoinha — nomes que, por si só, indicam a vocação natural desses locais para receber água. A orientação técnica era clara: aquelas eram áreas de várzea, onde a água da chuva se espalhava naturalmente.

Mas alterações no Plano Diretor permitiram a ocupação dessas áreas. Famílias construíram casas. Ruas foram abertas. O asfalto chegou. E os alagamentos vieram.

"Na verdade, Porto Velho já perdeu essa oportunidade há um tempo atrás. Quando foi feito, quando foi elaborado o Plano Diretor de 1988, ele previu a não urbanização de determinadas áreas. Mas as alterações que fizeram no Plano Diretor permitiram essas ocupações. E por mais que se tenha feito grandes obras de drenagem, sempre teve problema ali porque não eram áreas adequadas para serem urbanizadas." — Antonio Balau, urbanista

Hoje, a prefeitura atua com ações emergenciais: limpeza de sarjetas, dragagem de canais, manutenção da drenagem existente. O urbanista avalia que essas medidas são necessárias, mas insuficientes.

"Porém, hoje a gente tá correndo atrás de um prejuízo. Se tivesse obedecido às indicações técnicas, a gente não taria passando por tantos problemas como estamos hoje." — Antonio Balau, urbanista

O especialista destaca que equipes atuam na Zona Sul retirando lama acumulada há anos em calçadas e sarjetas. O trabalho evita que a sujeira escorra para a tubulação e cause entupimentos. Mas o problema estrutural permanece.

Outro fator que agrava os alagamentos é a impermeabilização do solo. Mais asfalto e mais concreto significam menos espaço para a água infiltrar na terra. O volume de água que antes era absorvido pelo solo agora corre pelas ruas, sobrecarregando o sistema de drenagem.

Para o urbanista, as novas ocupações já deveriam prever soluções para reter a água da chuva.

"As urbanizações, quando elas são bem pensadas, elas já preveem no seu bojo, principalmente nos dias de hoje, áreas para você prever onde você vai reter e infiltrar a água de chuva. Algumas soluções, como a gente hoje chama, né, soluções baseadas na natureza, elas preveem bacias de contenção, preveem biovaletas, preveem jardins de chuva. Tudo isso é possível de ser feito. Mas na medida em que essas ocupações, que essas novas urbanizações não trazem isso no seu projeto, fica muito difícil, porque aí tudo o que você vai fazer vai ser remediar. Sempre vai ficar mais caro." — Antonio Balau, urbanista

O desafio das obras de macrodrenagem

Porto Velho está entre as 13 cidades brasileiras contempladas com recursos do Novo PAC para obras de drenagem urbana. A capital é a terceira cidade do país que mais captou investimentos nessa área em 2025, com R$ 200 milhões destinados à cidade.

Mas o urbanista alerta: as obras de macrodrenagem exigem espaço. E esse espaço já foi ocupado.

"Muita coisa ainda tem que ser feita, porém são obras de macrodrenagem, né? E que demandam de espaço. Espaço esse que já foi ocupado pelo asfalto, já foi ocupado por habitações, né, e por urbanizações indevidas." — Antonio Balau, urbanista

Para resolver o problema de forma definitiva, o urbanista aponta um caminho difícil: retomar as áreas ocupadas.

"Olha, vai ter que começar a fazer algumas desapropriações, porque eu preciso retomar aquilo que foi ocupado, né? Eu preciso retomar as áreas que foram ocupadas ao longo dos cursos d'água, as áreas de várzea, onde naturalmente a água se espraiava." — Antonio Balau, urbanista

Ele explica que os cursos d'água retificados — endireitados pela ação humana — aceleram a água e pioram as enchentes. Os meandros naturais, por outro lado, são mais lentos e seguram a água por mais tempo.

"Na medida em que você faz uma retificação, na medida em que você endireita um curso d'água, você tá dando maior velocidade para ele. Esses meandros naturais propiciam esse espalhamento quando tem uma cheia, eles são mais lentos, então eles retêm a água durante mais tempo." — Antonio Balau, urbanista

O urbanista afirma que a cidade tem condições de se preparar para as chuvas dos próximos anos. Mas isso exige decisões difíceis.

"Para isso, eu preciso exatamente observar a natureza, então eu tenho condições de fazer isso, mas tem que ter muita vontade política, porque eu vou ter que tomar muita terra de volta para a cidade." — Antonio Balau, urbanista

Para quem vive em Porto Velho, os alagamentos não são apenas um transtorno passageiro. Eles afetam o dia a dia, o valor dos imóveis e a segurança das famílias.

  • Áreas próximas a igarapés e córregos têm maior risco de alagamento.
  • O histórico de ocupação irregular pode levar a processos de desapropriação no futuro.
  • Antes de comprar ou alugar um imóvel, é recomendável consultar o histórico de alagamentos da região.
  • Obras de drenagem resolvem parte do problema, mas a solução definitiva depende de revisão do plano de ocupação urbana.

Enquanto a cidade não respeitar as áreas que a natureza destinava às águas, os alagamentos vão continuar. O dinheiro investido agora está consertando erros cometidos no passado. Mas, para o urbanista, sem planejamento de longo prazo, as chuvas dos próximos anos vão continuar trazendo os mesmos transtornos.

Natália Figueiredo - Portal SGC


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