A adolescência é uma fase de intensas transformações. O corpo muda, as emoções se intensificam, as cobranças aumentam. Para muitos jovens, esse período de descobertas também traz sofrimento silencioso.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a quarta principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos em todo o mundo . São mais de 720 mil mortes por ano, o equivalente a uma a cada 40 segundos .
No Brasil, a realidade também preocupa. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o suicídio já é a terceira maior causa de morte, de acordo com dados do Ministério da Saúde . E os números vêm crescendo: de 2014 a 2024, a taxa entre jovens aumentou 41,7%.
Quando a tristeza vira depressão?
A psicóloga Milena Fidelis Campos explica que a principal diferença entre a tristeza comum e a depressão está na duração e na intensidade.
"A tristeza normal vem de um gatilho: um término de relacionamento, uma briga com os pais. A pessoa não perde o prazer pelo que gosta de fazer. Já a depressão é um transtorno que não precisa de um gatilho específico para acontecer, vem acompanhada de isolamento, falta de apetite e é duradoura — pode durar semanas ou meses."
A especialista reforça que a depressão na adolescência afeta entre 10% e 20% dos jovens no mundo, segundo a OMS . Muitos, no entanto, não recebem o tratamento adequado por falta de informação.
Sinais físicos e silenciosos que os pais não podem ignorar
A automutilação — como cortes, queimaduras ou machucados no corpo — é um dos sinais mais graves. A prática costuma surgir entre os 13 e 17 anos como uma tentativa de transformar a dor emocional em dor física, já que o cérebro processa os dois tipos de sofrimento de forma semelhante .
Outros alertas importantes incluem:
- Isolamento social e recusa em sair do quarto
- Alterações no sono — insônia ou sono excessivo
- Mudanças no apetite — comer muito mais ou muito menos
- Queda no rendimento escolar e falta de concentração
- Falas como "não quero mais viver", "não tenho amigos" ou "sou um peso"
- Irritabilidade exagerada e mudanças bruscas de humor
Os cortes geralmente são feitos em partes do corpo que podem ser escondidas por roupas, como braços, barriga ou coxas. O uso de blusas de manga comprida mesmo em dias quentes pode ser um sinal de alerta .
A forma como a família reage ao descobrir o sofrimento do jovem pode agravar ou aliviar o quadro. A psicólista Milena Fidelis Campos alerta para os erros mais comuns:
"Nunca diga frases como 'isso é frescura', 'falta de Deus' ou 'você só quer chamar atenção'. Essas falas fazem o adolescente se fechar ainda mais."
O aconselhável é ter uma conversa clara e objetiva, oferecendo escuta sem julgamento. A especialista orienta buscar ajuda profissional, seja por meio de psicoterapia, centros de convivência ou serviços de saúde.
Quando o jovem se tranca no quarto e corta a comunicação, a recomendação é tentar resgatar o contato aos poucos — com convites para atividades em família, como um almoço, um filme ou uma leitura conjunta.
Onde buscar ajuda gratuita
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Para crianças e adolescentes, há unidades específicas, o CAPS Infantojuvenil, com atendimento de porta aberta — basta procurar a unidade mais próxima pela Secretaria Municipal de Saúde .
Outras opções:
Centro de Valorização da Vida (CVV): atendimento gratuito, sigiloso e anônimo 24 horas pelo telefone 188, além de chat e e-mail no site
Clínicas-escola de faculdades: oferecem sessões de psicologia com preços reduzidos ou gratuitas
Unidades Básicas de Saúde (UBS): primeiro acolhimento e encaminhamento adequado
O Setembro Amarelo não é apenas uma campanha de um mês. Como lembra o psiquiatra Fábio Gomes de Matos e Souza, do Hospital Universitário Walter Cantídio, "o Setembro Amarelo é um lembrete para a sociedade de que não estamos fazendo a prevenção do suicídio de forma adequada" .
Falar sobre saúde mental sem tabus, escutar sem julgar e oferecer acolhimento são atitudes que salvam vidas. O silêncio, infelizmente, ainda é a principal barreira entre o sofrimento e a ajuda.
Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento difícil, não espere. Ligue 188. Uma conversa pode fazer toda a diferença.
Natália Figueiredo - Portal SGC